A linguagem e o discurso na antiga Medicina Tradicional Chinesa
Nos países ocidentais, os que se aventuram a empregar leigamente o tratamento acupuntural, sem terem uma indispensável graduação em Medicina, costumam propalar, devido às suas deficiências de conhecimentos epistemológicos e científicos, uma série de teorizações inexatas e/ou fantasiosas que não encontram fundamento nem na Medicina Tradicional Chinesa nem na Ocidental. Uma das mais repetidas e equivocadas é a do “diagnóstico energético”.Nos países ocidentais, os que se aventuram a empregar leigamente o tratamento acupuntural, sem terem uma indispensável graduação em Medicina, costumam propalar, devido às suas deficiências de conhecimentos epistemológicos e científicos, uma série de teorizações inexatas e/ou fantasiosas que não encontram fundamento nem na Medicina Tradicional Chinesa nem na Ocidental. Uma das mais repetidas e equivocadas é a do “diagnóstico energético”.
Discursam tais indivíduos que "a acupuntura (e, portanto eles próprios) não trata doenças, mas sim distúrbios energéticos" ou que "para usar a acupuntura não se faz diagnóstico clínico, mas sim diagnóstico energético".
Tais afirmações trazem uma série de impropriedades:
- A literatura mundial sobre Acupuntura – centenas de livros e milhares de artigos científicos – apresenta invariavelmente extensa listagem de doenças tratáveis com eficácia pelo tratamento acupuntural, bem como aquelas em que não há indicação clínica deste tipo de tratamento.
- Até mesmo a Organização Mundial de Saúde vem apresentando, desde 1979 (última edição em 2002), sucessivas e aperfeiçoadas listas de doenças e afecções clínicas tratáveis pela Acupuntura.
- Se assim não fosse, como explicar que as seguradoras de saúde ressarcem seus segurados das despesas com tratamentos de suas doenças por Acupuntura?
- Como explicar que os convênios pagam tratamentos acupunturais de doentes?
- Como explicar que o Conselho Federal de Medicina tenha reconhecido este tipo de tratamento como eficaz para toda uma série de enfermidades, e por isso tenha incluído seu exercício profissional como especialidade médica?
- A grande maioria das pessoas que procura um tratamento é porque obviamente apresentam um problema em sua saúde, ou seja, apresentam uma doença incipiente ou já estabelecida; todo paciente tem o direito, para que se preserve de riscos, de ter, sobre seu problema queixado, uma hipótese diagnóstica clínico-etionosológica. Se isso não é feito, o paciente está sendo lesado em seus direitos básicos, e quem o atende fere princípios fundamentais da Bioética.
- O tratamento acupuntural surgiu há mais de 30 séculos, descoberto empiricamente por aqueles que exerciam o ancestral ofício de médico na China; obviamente, para teorizarem sobre o porquê daquele tratamento funcionar no alívio de sintomas e cura de doenças (que nos dias de hoje já tem seu mecanismo de ação completamente esclarecido em termos da fisiologia neuro-imuno-endócrina), criaram explicações utilizando-se da linguagem figurativa e analógica da época, dos eventos natureza, dos valores de uma sociedade campesina dominada por oligarquia imperial, com todas as características da formulação típica do pensamento taoísta-confucionista vigente. Todas as civilizações fazem algo semelhante para explicar suas descobertas; nós ocidentais, por exemplo, nos utilizamos, durante muito tempo, de uma linguagem metafórica e de uma cosmo visão greco-aristotélica – cartesiana – newtoniana, recentemente ultrapassada pelos modelos fornecidos pelas teorias da organização, dos sistemas, das complexidades (que progressivamente estão se implantando nos diversos campos do nosso saber).
Contudo, o problema que ocorreu com o mau entendimento dos leigos é que estes tomaram a imagem pela realidade, e daí criaram uma fantasia.
Um dos primeiros divulgadores da Acupuntura no Ocidente, no século XX, foi o cônsul da França na China, George Soulié de Morant, que, encantado pela prática médica chinesa e valendo-se de sua condição política destacada, foi aceito como aluno de algumas classes em uma Escola de Medicina Tradicional Chinesa, sem, no entanto chegar a concluir seu aprendizado completo. No entanto, entusiasmado quando de seu retorno ao território francês, publicou um “Tratado de Medicina Chinesa”, que escreveu sem ter os conhecimentos plenos de um médico tradicional chinês e conhecimento nenhum de Medicina Ocidental, e, além disso, sem uma formação epistemológica indispensável para tal tarefa a que se propunha.
Devido ao interesse pelo exotismo, o livro foi um sucesso, mas muitos equívocos no entendimento da Medicina Tradicional Chinesa pelos ocidentais nasceram aí.
Um destes foi a tradução que Soulié de Morant fez para o termo chinês Qi, que é bastante polivalente, sendo empregado na literatura médica chinesa para expressar atividade funcional, conformação substancial, capacidade potencial, força física, entre outros; ele, no entanto, influenciado pelas doutrinas vitalistas ocidentais do século XVII e XVIII, preferiu usar como tradução um termo de natureza dualista, criado por aquela corrente de pensadores ocidentais: energia vital, palavra completamente inadequada para traduzir um conceito não-dualista chinês!
<-4->Este lamentável erro, baseado em ignorância epistemológica, foi gerando toda uma série de conclusões ocidentais equivocadas, das quais a mais flagrante é o “diagnóstico energético”.
Os antigos médicos tradicionais chineses faziam seu diagnóstico clínico-etionosológico usando da linguagem analógica e metafórica taoísta-confucionista sim, mas nada “energética” num sentido dualista, ou transcendental à matéria; faziam, isto é o certo, com aquela linguagem característica de época e civilização, o seu diagnóstico da doença.
Tanta é a preocupação deles com a expressão da doença num diagnóstico clínico que, a partir da metade do século XX em diante, a legislação chinesa passou a exigir que na graduação dos atuais médicos tradicionais chineses sejam incluídas todas as disciplinas da medicina científica contemporânea que lhes permita também formular um diagnóstico clínico-etionosológico com o formato ocidental; pois em qualquer atendimento de paciente, o médico tradicional chinês atual é obrigado a estabelecer uma hipótese diagnóstica tanto na linguagem científica ocidental quanto na tradicional chinesa.
Falar em “diagnóstico energético” – ainda mais dizendo que se prescinde do diagnóstico da doença! – é uma falácia, uma cabal demonstração de desconhecimento tanto da prática médica ocidental quanto chinesa.
<-5->Lamentavelmente, equívocos desta natureza vem acontecendo com alguns Conselhos Federais da área de saúde que, equivocadamente, pretendem autorizar o uso profissional da Acupunturologia por seus membros; como exemplo, temos o Conselho Federal de Biomedicina, que esquece dos conhecimentos científicos mais básicos – e mesmo do bom senso – ao abraçar tais fantasias, defendendo-as no documento (apenso a um processo judicial) “Acupuntura na Biomedicina”. Chega avançar ainda mais, tomando teorias históricas da Medicina Chinesa de 20 ou 30 séculos atrás como realidades, revelando total falta de senso, como ao mencionar que “as agulhas devem ser limpas e secas... a fim de evitar a inoculação de energia perversa (xie) que lentifica a circulação de qi nos meridianos, podendo causar estagnação do qi e do sangue”. A perda dessa capacidade de discernir entre uma teoria antiga, histórica, e a atualização do conhecimento cria tais afirmações infelizes que só colaboram para trazer uma inadequada aura de misticismo à Acupuntura. Não seria muito mais simples e útil dizer: “como qualquer material cirúrgico invasivo, as agulhas – preferencialmente descartáveis – devem ser esterilizadas (e não apenas limpas...) para evitar inoculação de microrganismos e disseminação de enfermidades infecto-contagiosas”?