Como é um atendimento por Acupunturologia?
É imprescindível esclarecer que, no atendimento do paciente por esta especialidade, o procedimento cirúrgico-invasivo de inserir uma agulha em uma região específica do corpo é apenas o ato final de uma série encadeada de indispensáveis atos:
- Ouvir o enfermo, fazendo sua anamnese.
- Proceder ao seu exame físico.
- Solicitar e interpretar eventuais exames complementares.
- Elaborar o diagnóstico clínico-etionosológico e seu conseqüente prognóstico.
- Fazer a prescrição do tratamento reconhecidamente efetivo para aqueles diagnósticos e prognósticos estabelecidos (que pode ou não ser o acupuntural).
- E finalmente, se for a indicação correta, realizar o procedimento acupuntural.
Explicando mais detalhadamente: no meio popular é muito comum ter-se uma concepção errônea desta especialidade; termos como “fazer acupuntura” conduzem a uma compreensão equivocada, como se o desempenho desta especialidade se definisse por espetar algumas agulhas na pele de acordo com as queixas do paciente. O procedimento da inserção de agulhas (que, como descreveremos adiante, é muito mais profundo e complexo do que apenas atingir a pele) embora dê o nome à especialidade, é apenas uma etapa de uma série de atos médicos encadeados e interdependentes. Tanto na China, local histórico de origem da Acupuntura, quanto no Brasil, uma consulta de Acupuntura corretamente conduzida – em termos éticos, científicos e técnicos – abrange uma seqüência obrigatória de etapas:
1. Anamnese
O paciente traz suas queixas ao médico, que as organiza sob a forma de um relato histórico daquele adoecimento, verbalmente investigando de forma cronológica, inquirindo sobre seus sintomas e suas modalidades variantes, sobre adoecimentos anteriores, sobre o funcionamento geral de seu organismo, sobre seus hábitos de vida, sobre enfermidades e condições de saúde na família;
2. Exame físico
O médico examina o corpo e o psiquismo do paciente:
- Por meio da inspeção visual da expressão facial e do olhar, do comportamento, da postura, deformidades, movimentos, marchas, segmentos corporais, coloração, hidratação, aspecto e lesões da pele, mucosas e cavidades, etc. – seja pela visão direta ou através de aparelhagens apropriadas (lupa, lanterna, otoscópio, oftalmoscópio, videoscópio, etc.).
- Pela análise da manifestação verbal e do discurso do paciente.
- Por manobras sobre segmentos corporais (coluna vertebral, membros, articulações, etc.) que visam evidenciar lesões e disfunções.
- Pela palpação das estruturas anatômicas acessíveis – tecido subcutâneo, vasos sanguíneos e sua pulsação, músculos, tendões, articulações e ossos, órgãos e vísceras.
- Pela percussão do tórax e abdome.
- Pela ausculta, com auxílio de estetoscópio, de ruídos e sons oriundos do funcionamento ou de lesões de órgãos e vísceras.
- Pelo exame da motricidade, da força e tônus muscular, da coordenação e dos reflexos neurológicos, da exploração da sensibilidade dos segmentos corporais (subjetiva e objetiva, superficial e profunda).
- Pela aferição de dados (com auxílio de aparelhagem própria) como temperatura, pressão arterial, freqüências cardíaca e respiratória, peso, altura, etc.
3. Exames complementares
Eventualmente, conforme a necessidade do melhor esclarecimento diagnóstico e prognóstico, o médico solicita, interpreta e correlaciona clinicamente os resultados de exames laboratoriais bioquímicos, de imagem (radiológicos simples, tomografias computadorizadas, ultrassonografias, ressonâncias magnéticas, cintilografias), histopatológicos, imunohistoquímicos, exames baseados em captação elétrica (eletrocardiogramas, eletroencefalogramas, eletroneuromiografias, etc.), videoendoscopias e outros.
4. Diagnóstico clínico-etionosológico
Baseado na articulação conjunta e coerente de todos os dados anteriores, e utilizando-se da maior atualização possível nos conhecimentos relativos às ciências médicas, o médico estabelece hipótese diagnóstica e diagnósticos diferenciais; disto vai resultar num prognóstico para aquele paciente, que é o julgamento que o médico faz a respeito da evolução da enfermidade que acomete o doente (não só de acordo com a doença, mas também com a pessoa doente) e também da resposta que terá cada uma das opções terapêuticas possíveis no caso.
5. Prescrição terapêutica
Baseado no diagnóstico e no prognóstico, o médico vai prescrever um tratamento clínico ou cirúrgico; profilático, paliativo e/ou curativo – dependendo das prerrogativas terapêuticas disponíveis para prevenir, aliviar e/ou curar. A eficiência do tratamento vai depender desta acurácia.
Dependendo do diagnóstico e do prognóstico, o tratamento por acupuntura pode ou não estar indicado; e, se indicado, pode ser o tratamento único, principal ou coadjuvante. Tratamento por acupuntura não é efetivo para todas as condições patológicas; em algumas situações, inclusive, está formalmente contra-indicado; em diversas outras, deverá ser usado em conjunto com outras providências terapêuticas. Somente uma plena formação médica, com seu treinamento exaustivo sob supervisão, pode permitir a plena desenvoltura no exercício destas capacidades discernir, decidir e intervir, buscando assim, preservar de riscos a integridade do paciente.
Por exemplo, se tivermos uma paciente com uma dor abdominal resultante de uma gravidez tubária rompida ou apendicite, e isto não for diagnosticado e, por equívoco, não for feita prescrição e intervenção cirúrgica, a paciente falecerá.
Também, se um paciente apresentar dores na coluna vertebral, e a causa primária disso for metástases de câncer de próstata e tal etiologia não for reconhecida, o paciente terá prescrição de tratamento equivocado e o câncer prosseguirá sem a necessária e salvadora interferência terapêutica.
6. Procedimento acupuntural
Tendo sido feitas todas as considerações anteriores, abre-se então a possibilidade do tratamento por acupuntura.
Os procedimentos acupunturais utilizados em 95% das situações são o agulhamento “seco” (com ou sem estimulação elétrica sobre a agulha) ou com infiltração de substâncias (água destilada, lidocaína, procaína, cianocobalamina, além de diversos medicamentos de origem fitoterápica), que perfuram a pele, atravessam o subcutâneo, chegam à fáscia muscular, atingem ligamentos, músculos e tendões e muitas vezes vão até o periósteo, atravessando sempre regiões vascularizadas e com rica inervação; muitas zonas neurorreativas (“pontos de acupuntura”) encontram-se superpostos a órgão internos – e por todas as correlações anatômicas a inserção inadequada ou inábil de uma agulha em zona neurorreativa pode trazer lesões graves.
Estímulos feitos com agulhas de acupuntura bem superficialmente, apenas na pele ou em regiões superficiais do tecido celular subcutâneo nas regiões sobrejacentes aos “pontos clássicos de acupuntura” não são considerados, em toda literatura científica mundial, como “acupuntura verdadeira”; pelo contrário, são consideradas como uma técnica invasiva de “acupuntura falsa” (invasive sham acupuncture), uma vez que desencadeiam efeitos fisiológicos não-específicos da Acupuntura, e por isso é utilizada nos grupos controle (grupos de “acupuntura falsa”) nos estudos clínicos de Acupuntura. Explicando melhor: descobriu-se que esse tipo de aplicação de agulhas desencadeia um estímulo neural inibitório difuso (também denominado controle inibitório nocivo difuso, com a sigla em inglês DNIC), que provoca um efeito analgésico discreto difuso e inespecífico, alterações locais de circulação sanguínea, discreta e inespecífica estimulação imunológica e momentânea leve sedação do paciente; no entanto, tais efeitos são difusos e inespecíficos – e diferentes da verdadeira Acupuntura. Contrariamente, os efeitos da verdadeira Acupuntura (quando as agulhas atingem adequadamente as zonas neurorreativas que se encontram na intimidade profunda dos tecidos) são de intensidade e duração significativamente maiores, e, ainda mais importante, são específicos (pois resultam diretamente das vias neurais ali especificamente ativadas e das resultantes regiões do sistema nervoso central que vão ser alcançadas pela transmissão neural daquele estímulo, bem como da composição dos diferentes neurotransmissores que serão liberados em conseqüência).
Cabe aqui uma observação muito importante: muitos praticantes de acupuntura leigos em medicina, por falta de conhecimento e treinamentos próprios e adequados, utilizam esses tipos de aplicações de agulhas na pele e regiões subcutâneas superficiais, acreditando que estão utilizando Acupuntura; na verdade, estão utilizando um estímulo neural inibitório difuso, que traz algum tipo de alívio transitório e inespecífico ao paciente, mas que não é o efeito específico e próprio da verdadeira Acupuntura.
Além disso, embora essa técnica de “acupuntura falsa”, por ser bem superficial, evite as lesões de órgãos, nervos e unidades músculo-tendino-ligamentares, não evita os efeitos adversos de contaminações e disseminações de microrganismos e acidentais migrações de agulhas pelo subcutâneo (tão freqüentemente relatadas na literatura japonesa de complicações de Acupuntura naquele país); isso sem considerar que a prática da acupuntura leiga em medicina não tem condições técnico-científicas de estabelecer o diagnóstico etio-nosológico imprescindível para preservar o paciente de demais riscos. Os oito casos de endocardite bacteriana – tendo quatro resultado em óbito – todos eram pacientes com lesão valvular cardíaca prévia (portanto pacientes de risco para intervenções invasivas) condição esta que não foi diagnosticada porque foram tratados por leigos em medicina que não tinham condição de fazer e interpretar uma ausculta cardíaca e nem sabiam que esta é uma condição de risco; e todos os oito pacientes haviam sido tratados com uma modalidade de Acupuntura verdadeira bastante superficial, que é a aurículoacupuntura (inserção de agulhas na pele e cartilagem das orelhas).
Ou seja, “fazer acupuntura”, executar as punções adequadas com as agulhas de acupuntura é apenas a etapa – complexa, delicada e com riscos potenciais – final de toda uma série de atos que exigem profundo conhecimento e treinamento exaustivo e supervisionado.