Fatores Culturais e Educacionais na Inserção de Práticas Médicas
- Autor: Lima, Carlos Ernesto dos Reis
- Orientador: Baldin, Nelma
- Descrição: Dissertação apresentada à Universidade da Região de Joinville, Saúde e Meio Ambiente, para obtenção do grau de Mestre, 2003. 146 pp.
- Biblioteca responsável: UNIVILLE
- Resumo: Os processos que levam à aceitação ou rejeição de uma determinada prática pela classe médica vão além de considerações sobre a sua efetividade. A Medicina Baseada em Evidência é uma tentativa de selecionar protocolos e práticas de acordo com sua eficácia verificada. Todo estudo está sujeito a vieses epistemológicos e isto inclui as meta-análises de estudos controlados. O conhecimento de fatores que levam à rejeição de práticas potencialmente benéficas ou à adoção de práticas inócuas ou prejudiciais, pode contribuir para que a seleção das práticas a serem incorporadas à medicina seja mais efetiva. Para estudar esses fatores, analisou-se a aceitação ou rejeição da homeopatia e da acupuntura entre os médicos de Joinville/SC. A metodologia utilizada foi da pesquisa qualitativa, com a realização de entrevistas com oito médicos de outras especialidades, domiciliados e trabalhando em Joinville, e com a prática concomitante da observação participante. Os entrevistados apresentaram aspectos diversos, e por vezes antagônicos, da questão. Os resultados obtidos apontam para fatores importantes na inserção destas práticas: ambas são pouco conhecidas e estão ausentes no currículo formal da medicina. Esse desconhecimento leva à confusão com outras práticas. A homeopatia é confundida com a fitoterapia. A homeopatia e acupuntura são confundidas com misticismo, religião, e charlatanismo. Foi referida a existência de preconceito em relação às duas especialidades médicas. Este preconceito foi atribuído à ausência das mesmas na formação, ao pouco contato com seus praticantes, e à atitude depreciativa de professores de outras especialidades. Ambas as especialidades foram referidas como não-científicas, anti-científicas, e como opostas às demais especialidades médicas. Os critérios de ciência e cientificidade foram diversos. Um critério apresentado e tomado como fundamental para se considerar uma especialidade científica foi a comprovação de efetividade por meio de ensaios randomizados grandes, multicêntricos, com grupos de controle. Chamou-se a atenção para a freqüência com que os resultados deste tipo de estudo são revistos, e que muitas vezes os novos estudos derrubam a crença na efetividade de antigos procedimentos. Foi referido que o critério para a suposição de cientificidade de uma prática não é sua validação empírica, mas a inserção dentro do referencial anátomo-fisio-patológico. Neste sentido, a educação formal é vista como um processo de compartilhamento de crenças, de respeito a instituições que creditam, ratificam e validam umas práticas, e não outras. Um aspecto fundamental quanto à cientificidade foi a questão do próprio conceito de ciência. O modelo cartesiano foi apresentado como ultrapassado, e como o principal obstáculo para a inserção da homeopatia e da acupuntura. A aceitação de ambas especialidades é referida como conseqüência de um aprofundamento do conceito de ciência, que leva à uma maior flexibilidade e abertura.
- Fonte: Banco de Teses/CAPES